ACTO 6: Activistas protestam em frente ao Ministério da Agricultura sobre Acordos Contratuais com a China

COMUNICADO DA ACÇÃO: ACTIVISTAS PROTESTAM EM FRENTE AO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA SOBRE ACORDOS CONTRATUAIS COM A CHINA

Nesta manhã, activistas simularam o Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural de Portugal, Luís Capoulas Santos a receber do Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, um cheque com aquilo que o nosso país terá que pagar com os seus recursos naturais, impactos ambientais e sociais para a produção de animais para consumo humano.

Enquanto o governo português assina contratos com governos e empresas internacionais com o discurso de benefícios e desenvolvimento económico, parecem ser esquecidas as consequências que estes contratos trarão ao nosso país e ao planeta. A agricultura intensiva não é sustentável e causa enorme impacto nas alterações climáticas, porém isso não parece ter relevância para estes negócios.

Hoje não é necessário ser um cientista ou especialista na área ambiental e climática para saber que estamos muito próximos de um colapso climático e para entender a necessidade de se fazerem mudanças urgentes para permitir que o planeta permaneça habitável nas próximas décadas, evitando a extinção não só de inúmeras espécies animais e vegetais como da nossa própria espécie. Não podemos continuar a ter líderes governamentais a trabalhar pelo sentido contrário, negando estas evidências que são cientificamente consensuais.

Enquanto promovem subsídios para que os agricultores produzam de forma intensiva o necessário para responder a estes contratos, recursos naturais valiosíssimos como a água, a terra e o ar são utilizados, gastos, destruídos e contaminados, sendo isso apenas o lado mais visível de todas as implicações sociais que isso acarreta. Esta agricultura intensiva é uma das indústrias mais poluentes que temos, emitindo gases de efeito estufa em altas doses (CO2, CH4, N2O, NH3), que são liberados na atmosfera sem qualquer controlo nem limite. De acordo com a agência ambiental holandesa só com a agricultura poderia-se cortar as emissões de carbono em 17%, as emissões de metano em 24% e as de óxido de nitroso em 21% até 2050. O nitrogênio é um dos grandes responsáveis pela deterioração do ambiente aéreo pela formação do gás amônia. a agricultura animal produz 65% do óxido nítrico com potencial de 296 vezes maior que o CO2 no aquecimento.

Também a água e os solos sofrem contaminações irreversíveis, além da destruição da biodiversidade que o novo uso dos solos obriga. As consequências da degradação ambiental são muito difíceis de contabilizar mas serão cada vez mais visíveis com o ritmo de destruição que estamos a promover. A criação de porcos também afeta as florestas. Para alimentar esses animais, é necessário derrubar árvores para plantar soja e produzir ração. Vários problemas ambientais estão sendo desencadeados em virtude da expansão da agropecuária e da utilização de métodos para o cultivo e criação de animais. Temos no mundo mais de 870 milhões de pessoas sem acesso à água potável e enquanto para produzir um quilo de carne de porco, a demanda é de 6 mil litros de água.

Os atuais sistemas de criação, especialmente no caso de suínos, geram grande quantidade de efluente, cuja proporção de nutrientes mostra-se desequilibrada. Assim, o uso continuado e, ou, excessivo dos efluentes, pode causar danos ambientais, destacando-se a poluição do solo, da água e do ar, além de perdas de produtividade e qualidade de produção. Na produção de suínos, em função da alta concentração de grandes rebanhos, os dejetos podem exceder a capacidade de absorção dos ecossistemas locais, sendo a causa potencial da poluição e problemas de saúde pública.

Podemos além disso tratar de questões sociais, 50% dos cereais e legumes produzidos no mundo hoje são destinados aos animais de consumo e 82% das crianças que passam fome no mundo vivem em países em que a comida são para os animais de corte, produzimos comida suficiente para alimentar o dobro da população mundial, que hoje é de 7,8 bilhões de pessoas, mas temos 11% da população considerada desnutrida e quase 6 mil pessoas morrem de fome por dia no mundo.

Estima-se que a agricultura emprega cerca de mil milhões de pessoas, sendo 43% dos trabalhadores são mulheres. É nas zonas rurais que encontramos oito em cada dez dos pobres que trabalham (ganhando menos de US$ 1,25 por dia), a maioria dos quais trabalham em condições precárias e todo este conceito aplica-se também nos matadouros onde apresentam-se condições desumanas. Na agricultura existe uma oportunidade real de criar empregos com transição justa, passando-o de extremamente poluente a proteção do ecossistema que sustentam a vida humana.

Todo este valor (muitas vezes incalculável) não é fixado no preço final de venda aos parceiros comerciais. Para o governo e empresas chinesas é muito mais vantajoso importar do que ter que pagar o alto valor dos recursos naturais e evitar o déficit de redução de emissões que hoje já são “cobrados” pelos acordos internacionais, como o de Paris. Por outro lado, Portugal pagará toda esta conta e não conseguirá reduzir as suas emissões de acordo com os números indicados pelo IPCC que, relembramos, não são uma meta mas sim um abismo.

É de grande importância que o setor produtivo tome consciência da degradação ambiental e social causada, pois tiram a comida das pessoas, tiram a água das pessoas, tiram as terras das pessoas e devolvem um ecossistema altamente degradado.

O Extinction Rebellion Portugal exige que os líderes revejam as suas políticas e que se baseiem em propostas de agricultura sustentável e justa. O governo tem por obrigação salvaguardar os bens comuns, tanto nacionais como internacionais, além de criar condições para que a população tenha acesso a uma alimentação saudável e justa ao invés de enriquecer uma minoria de grandes empresas não olhando a custos ambientais, vidas humanas e animais.

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